Fundada em 1894 por dois imigrantes alemães, a Einsembach e Hürlimann começou pequena, até virar Fiat Lux. Foi só em 1916, na Primeira Guerra Mundial, que a Companhia Paranaense de Fósforos foi arrendada pela multinacional ligada ao grupo inglês Bryant & May. Sob o comando do grupo, a indústria importou maquinário da Europa e a Fiat Lux virou potência nacional. Na década de 1930, era a maior do Brasil. Hoje em dia é a maior do globo.
Provavelmente a Fiat Lux era a única indústria da metade do século XIX em Curitiba onde as mulheres eram maioria, estima-se que 55% em 1950. Jovens, muitas vezes menores de 15 anos, aprendiam desde cedo a encabeçar palitos, selar caixas e a trabalhar disciplinadamente. A historiadora Roseli Boschilia descreve esses como costumes das famílias imigrantes, a qual as moças, antes da idade adulta, faziam a economia para o enxoval e os homens ocupavam setores pesados e os cargos de chefia, reservados a eles por tradição.
Os relatos preservados pelas trabalhadoras da época revelam uma rotina de trabalho dura. Eram comuns as suspensões por “desídia”, como chamavam a preguiça, ou negligência. Mas, por mais que as relações hierárquicas fossem marcadas por atritos, os trabalhadores raramente eram demitidos. E ainda assim, havia espaços de respiro: um prêmio por produtividade, a corrida para “vencer a máquina” e ganhar minutos de conversa com a colega, ou a pequena festa improvisada para quem deixava a fábrica rumo a uma nova vida, que frequentemente significava o casamento.
Longe das caixinhas de fósforo e dos muros da fábrica, os operários encontravam outras maneiras de se integrar, e também flertar. Nessa época, grande parte dos operários vinha de longe. O Rebouças os recebia como um bairro em transformação. Cortado pela ferrovia e pontilhado de indústrias, ele se tornava um espaço onde o trabalho ia de encontro com a modernidade.
“Não é só uma indústria, ou uma fábrica. Ela vai gerar uma série de atividades ao redor, e por isso vai envolver tanto a memória das pessoas. Vira todo um ecossistema em volta, e tudo isso a partir dos trilhos, que gera o escoamento da produção. A Fiat Lux é a primeira fábrica que se estabelece no Rebouças, em 1985”, conta a historiadora e arquiteta Iaskara Florenzano.
A ferrovia nesse cenário foi decisiva. Ela não apenas garantiu o transporte da produção da Fiat Lux e de outras indústrias, como também rompeu o isolamento da cidade. Pelos trilhos, Curitiba se conectou aos portos de Paranaguá e Antonina, ao mercado do Prata, ao Brasil e ao mundo.
“Naquele momento ela vai romper o isolamento desse pequeno núcleozinho urbano que a gente tinha em Curitiba com o litoral, que era o nosso lugar de escoamento da produção pelo porto. Tanto de Antonina e de Paranaguá, que na época rivalizavam em importância”, explica Iaskara.
Para o Paraná, significava a entrada definitiva no circuito da economia nacional e internacional. O bairro sede, inclusive, recebe o nome dos engenheiros que projetaram a ferrovia e tantos outros projetos que ligavam Curitiba à modernidade. Antônio e André Rebouças foram também os primeiros negros tendo o reconhecimento como engenheiros no país.
A fábrica de mais de um século pertence hoje à Swedish Match, um grupo internacional com sede em Estocolmo, na Suécia. A história dela passou por controvérsias e desafios. A indústria que fazia fósforos de araucárias hoje é expoente em reflorestamento. O que ninguém nega é que a Fiat Lux fez parte da história de uma província que se desenhava para o mundo como capital de projeção global.